Tenho uma ideia para o próximo quadro. Já tenho a imagem completamente formada na minha mente e retrata em parte a minha sanidade mental. Três versões de mim estão a fumar. O Rui do meio, agarrado à cabeça a tentar conter a loucura. O Rui da direita ri-se feliz como se tivesse a cheirar o mais enebriante dos perfumes. O Rui da esquerda chora, sem ser exagerado, um chorar pura e simplesmente, triste. O título pensei é perfeito "Three cigarettes to smoke my tears away".
Este meu sítio na vastidão do nada conhecido por internet, sinto-o como um diário íntimo já que se ainda há alguém que aqui vem ler suponho que seja algo muito ocasional. Pelo que quando escrevo, escrevo-o para mim.
Da mesma maneira que mando e-mails com temporizador de um ano, mensagens para um eu futuro, aqui guardo um baú de memórias.
A certeza de ir para a Alemanha chega nos próximos dias. Gostei dos 4 dias que lá estive. Apesar da terrível solidão, aprecia-se melhor a solidão devido a razões geográficas do que a solidão devido a razões kármicas.
Em Portugal sinto-me terrivelmente sozinho. Mas não que não tenha amigos, e eventuais affairs. Nada disso. Apenas que passam por mim a saber o mesmo. Não tenho tido nada que me agite o mar. Falta-me um maremoto de emoções. E com as escassas excepções, por vezes até na forma de mensagens electrónicas, nada me mexe. Isto a nível emocional. Todo o meu eu académico sente-se mais que realizado.
Mas a dicotomia de eus está cada vez maior.
Eu sinto-me a ensandecer.
Sinto que quero fugir, para deixar de sentir que perco tempo em sonhos vãos. Andar a colidir feito carrinho de choque com as paredes, apesar de tentador porque o coração não conhece racionalidade, é contraprodutivo. Se uma pessoa quer evoluir, tem que aprender a dominar-se, e a saber libertar-se. Reconhecer quando algo é destrutivo é fácil, basta pararmos e olharmos. Fazer algo quanto a isso já requer determinação, força de vontade e amor próprio. E falando de experiência própria sei o quanto isso é difícil, e sei que do momento em que voltamos atrás numa decisão que tomámos num momento de lucidez nos destrói as fundações da nossa mente. Deixamos de ter auto-coerência. Passamos a ser auto-mutiladores. A diferença entre isto e andar a pregarmo-nos nas cruzes como nas Filipinas é nula. Com a diferença que a dor física liberta endorfinas que dão prazer. Isto é masoquismo puro.
Quero mais frio, quero congelar o coração apenas para que haja de facto um fogo, não apenas uma luz no fundo do túnel, a libertar-me.
"I fade into you" by Mazzy Star

1 oscilações:
Devias acrescentar um quarto cigarro, com um Rui a rir-se de uma Ana a desprezá-lo por estar a fumar enquanto faz cara de eu estou-te a ver.
Acho que a solidão quando se está longe é justificada, afinal quantas pessoas conhecemos ali? a quantas não temos de dar provas de nada? estamos no meio de outra gente, no seio de outra pátria; não nos cruzaremos com ninguém conhecido, ali não há vizinhos de infância, o maluco habitual do metro, os amigos à porta de casa, não há história, não há convites. Agora, a solidão porque se opta por ela no meio de gente que nos conhece, é uma solidão escolhida e isso faz-me sentir a separação não-física de todo o mundo, e isso lembra-me que não vivo com solidão, mas sim que sou um ser solitário. Acho que é isso, para mim, que faz a diferença.
Mas nós estamos sempre a pelo menos 14 nanometros de distância. (É 14? Não me lembro, mas foi a primeira coisa que aprendi contigo. lol)
Beijinho, Ruizinho, gosto muito de tu.
(Olha! Vi agora que o mail que recebi é teu. :D)
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